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Homenagem à Professora e Historiadora Eni de Mesquita Samara

Autor: 
Paulo Roberto Andrade

Uma pessoa corajosa, alegre, de presença marcante. Sempre com um novo projeto para ser apresentado e desenvolvido. Pioneira em estudos de história demográfica e econômica, e uma das maiores pesquisadoras brasileiras em história da família e da mulher. Essas são algumas características da professora e historiadora Eni de Mesquita Samara, descritas por seus colegas professores do Departamento de História da FFLCH. Falecida em agosto de 2011, a professora foi homenageada no último dia 13 de abril, em evento no anfiteatro do prédio de História.

Logo na abertura, o professor Modesto Florenzano, vice-diretor da FFLCH, falou da importância da professora para a Faculdade, e comentou sobre como costumamos dar valor às pessoas somente quando as perdemos. Em seguida, a professora Sara Albieri, chefe do Departamento de História, falou que o evento marcava o início de uma série de celebrações aos professores aposentados que ajudaram a formar a chamada Escola Uspiana de História. E lamentou o fato de a primeira homenagem ser póstuma.

Trabalhos pioneiros
Na sequência, os professores Rodrigo Ricupero e Horácio Gutiérrez discorreram sobre a importância da obra da professora Eni, destacando seu trabalho de mestrado, que deu início a suas pesquisas em temas relacionados à sociedade brasileira escravagista e, posteriormente, história da família e o papel da mulher nos séculos XVI a XIX.

A respeito desse trabalho de mestrado e início de carreira, a professora Vera Ferlini destacou em leitura de texto de sua própria autoria: “Desde 1971, instrutora voluntária dos cursos de História do Brasil Colonial; em 1977, por concurso público, tornou-se professora do Departamento de História da FFLCH-USP. Havia defendido, em 1975, um primoroso mestrado, O papel do agregado na região de Itu (1780-1830), que se tornaria obra de referência no estudo do papel das populações livres em economias escravistas”.

O professor Gutiérrez ressaltou a coragem da professora ao ser pioneira no estudo de história demográfica e econômica no Brasil, pesquisando história das populações e evolução das estruturas demográficas brasileiras, e tornando essa uma área importante dentro da pesquisa em história no Brasil.

Sobre o pioneirismo, a professora Raquel Glezer lembrou: “Eni sempre foi uma pessoa especial e corajosa: pesquisou Demografia Histórica quando o campo era pouco conhecido no país; desenvolveu os estudos de família e de gênero e abriu caminho para os estudos de sexualidade – mesmo caminhando na contramão do consensual e conhecido; ampliou relações acadêmicas entre pesquisadores de países latino-americanos quando o isolamento e o olhar para a Europa era a norma; criou grupos de pesquisa em oposição ao individualismo exacerbado do mundo acadêmico dos historiadores; organizou um centro de documentação de demografia histórica doando seus materiais de pesquisa para que outros pesquisadores não precisassem refazer o mesmo trajeto. A mesma coragem com que lutou por sua vida”.

A professora Esmeralda de Moura se emocionou ao lembrar da convivência com a professora Eni, e do orgulho em contribuir com as pesquisas sobre história das mulheres e a família na sociedade colonial paulistana e brasileira. Tais estudos ajudaram a mostrar uma estrutura familiar que foge do estereótipo tradicional do marido dominador e da mulher submissa, mostrando mulheres, principalmente nas camadas mais baixas da sociedade, que lutam por seus direitos, trabalhando e chefiando famílias.

Viagens e histórias
As professoras Raquel Glezer e Vera Ferlini, concentraram suas exposições em passagens e experiências pessoais que tiveram com Eni. Vera, entre risos e lágrimas, relembrou algumas viagens com a professora, como o caminho de Santiago de Compostela (feito de carro!), e da chegada a Madri, onde tiveram as três que dormir numa dispensa improvisada como quarto no Hotel Ritz.

Relembrou também outra viagem, quando Eni teve a bolsa furtada num restaurante em Londres, no dia do seu aniversário. E a época do diagnóstico da doença, quando os colegas e ela própria acreditaram na recuperação e dispensaram uma homenagem em vida. “Por isso, Eni continuou pesquisando, trabalhando e vivendo”, recordou a professora Vera.

A professora Raquel recordou da presença da professora na FFLCH: “Teve uma brilhante atuação como docente e pesquisadora, deixando sua marca nos estudos históricos brasileiros, mas destacar qualquer um dos aspectos citados acima não nos consolará da ausência da figura humana, alegre, generosa e corajosa”.

“Vê-la nos corredores do Departamento sempre nos animava: sua figura se destacava no espaço meio vazio e meio deprimente do corredor das salas dos professores. Estava, cada vez que a encontrava, com um novo projeto para apresentar, para discutir, para desenvolver e publicar”, completou a professora.

Os textos lidos pelas professoras Raquel Glezer e Vera Ferlini, foram publicados no volume 6 da Revista Cultura e Extensão USP, em outubro de 2011.
Link:
http://www.prceu.usp.br/revistausp6.pdf

Para visualizar as fotos do evento, clique aqui.