Graduação Pós-Graduação Pesquisa Extensão Biblioteca Intercâmbios Comunicação A FFLCH  
Skip to Content

Venezuela torna-se a maior reserva de petróleo do mundo

Autor: 
Luis Ricardo Bérgamo

Segundo o relatório anual da Organização do Países Exportadores de Petróleo (Opep), divulgado em setembro deste ano, a Venezuela ultrapassou a Arábia Saudita em volume de reservas de petróleo cru. Com  296,5 bilhões de barris em seu solo, a Venezuela torna-se o número um no ranking dos países com maiores reservas de petróleo, posto ocupado tradicionalmente pela Arábia Saudita, que caiu para o segundo lugar, com 264,5 bilhões de barris.

Em relação ao relatório do ano passado, a Venezuela aumentou em 40% o número de suas jazidas. Já a Arábia Saudita permaneceu estável, por isso essa mudança no quadro mundial da distribuição de petróleo. Em terceiro lugar no ranking dos países com maiores jazidas aparece o Irã, com 151,1 bilhões de barris e, em quarto, o Iraque, com  143,1 bilhões de barris.

Ainda faltam estudos que avaliarão se todas essas novas jazidas de petróleo venezuelano são economicamente viáveis. Por hora a informação é recebida com cautela pelo mercado mundial.

Petróleo no Mundo: Ranking das Maiores Jazidas do Mundo em Bilhões de Barris

Venezuela 296,5
Arábia Saudita 264,5
Irã 151,1
Iraque 143,1
Kuwait 101,5
Emirados Árabes Unidos 97,8
Rússia 79,4
Líbia 47,0
Fonte: Opep

O petróleo iniciou oficialmente a sua história na Venezuela em 1875, quando sua extração passou a ser sistemática e profissional,  mesmo que ainda em modesta quantidade e retirada através de bombas manuais. No mesmo ano, criou-se também a primeira refinaria, que visava abastecer a iluminação pública e residencial. Mas antes mesmo que Colombo aportasse no continente, os nativos venezuelanos, que já conheciam o petróleo com o nome de “mene”, o utilizavam como cimento, impermeabilizante para as canoas ou combustível para a iluminação. No período colonial, o petróleo venezuelano foi descrito pela primeira vez em 1535, sendo levado até a Corte da Espanha para curar moléstias, tal como a gota. Em 1799 encontramos a primeira descrição científica do petróleo venezuelano juntamente com uma lista das principais jazidas de então. Em 24 de outubro de 1829, Simón Bolívar decretou que todas as minas eram de propriedade do Estado.

O petróleo começou a ser explorado em grande escala na Venezuela a partir de 1922, porém, o gás natural, gerado em consequência da retirada do produto, era jogado na atmosfera sem nenhum aproveitamento. Em 1929 a Venezuela tornou-se o segundo maior país exportador de petróleo, precedidos pelos Estados Unidos. Foi na década de 20 que a exportação do petróleo na Venezuela ultrapassou a venda do café, antes seu principal produto e, assim, o país entrou na categoria dos países exportadores de petróleo, sendo o produto hoje responsável por 75% das exportações. O uso do gás natural como combustível e matéria-prima seria regulado por lei somente em 1946.

Durante a II Guerra Mundial (1939 - 1945) a Venezuela abasteceu aproximadamente 60% da demanda de combustível dos Aliados. Em 1943 o Estado venezuelano legislou sobre a divisão das receitas obtidas pelas empresas que exploravam o petróleo, ficando a Venezuela com 50% dos lucros. Terminado o conflito mundial e com o aceleramento do processo de industrialização pelo mundo, o petróleo passou a ser percebido como produto estratégico no desenvolvimento industrial dos países. Seu controle passa a ser geopolítico. Quem dominava o mercado do petróleo neste período eram os Estados Unidos, que mantiveram o barril com preços estáveis, entre 12 a 16 dólares.  Nesse período, a Venezuela experimentou um grande avanço na infraestrutura rodoviária, de saúde e educação, aumentando, barril a barril, seu produto interno bruto.

A Venezuela, em 1960, era um importante exportador de petróleo mundial e junto de outros países exportadores, como Irã, Iraque, Kuwait e Arábia Saudita, criou a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). A finalidade da Organização era ter peso na negociação do preço do barril no mercado mundial. Até então, quem controlava este fluxo de dinheiro eram os Estados Unidos.

Em outubro de 1973, os países exportadores de petróleo mostraram o peso de sua importância no contexto mundial. Por conta da Guerra do Yom Kippur (06 a 26 de outubro de 1973), em protesto, os países da OPEP declararam embargo total das exportações, o que durou cinco meses. O resultado foi um salto no preço do petróleo, de 11 para 30 dólares o barril. Com o choque econômico, os países começam a investir em outras formas de energia, como as hidrelétricas. Ainda assim, o papel do petróleo continua central na economia mundial e em 1981 seu preço marca o recorde histórico de 53 dólares pelo barril.

Em 1976, a política petroleira venezuelana mudou seu rumo e começou a nacionalização da produção (estatização) do petróleo. Anteriormente o produto era explorado por concessão, a partir de então, as empresas particulares foram fundidas na estatal Petróleos da Venezuela S.A. (PDVSA). Somente em 1996 é que o governo venezuelano abriu novamente a produção de petróleo para o investimento de capital externo e novas licitações foram feitas. A mudança na política de concessão teve como finalidade arrecadar 60 bilhões de dólares e assim investir no aumento da produção.

Em 1999, assume a presidência da Venezuela, Hugo Chávez, que incorpora em seu discurso o nacionalismo, o bolivarismo, e o latino americanismo. As primeiras viagens internacionais de Chávez são para os países membros da OPEP: Irã, Líbia e Iraque. Esta retomada de contato entre os países da OPEP apareceu no noticiário internacional como uma exótica empreitada anti norte- americana. Porém, o presidente Chávez conseguiu agendar para o ano seguinte, a segunda reunião dos países da OPEP, realizada na Venezuela. Em 2000, a cúpula da OPEP se reuniu em Caracas e decidiu fixar o volume de produção e assim manter o preço do barril estável, entre 22 e 28 dólares o barril, colocando a Venezuela como um expoente dentro deste grupo. As decisões dessa reunião tiveram impacto quase imediato, o preço do barril em 1999 era de US$ 9,00 e passou a pouco mais de US$ 20,00, até o 11 de setembro de 2001, quando os preços do petróleo dispararam no mercado mundial devido ao ataque ao World Trade center, em Nova York.

Na nova constituição, chamada de Bolivariana, aprovada em 1999, consta que a PDVSA não pode ser privatizada. É criado o Plano de Desenvolvimento Econômico e Social da Nação 2001-2007, que legisla sobre o petróleo venezuelano. Este plano prevê o aumento do repasse dos lucros da PDVSA para o Governo, válido para os novos contratos. Mas a medida mais importante, que buscava retaliar a burocracia viciada da companhia petroleira, foi a separação da contabilidade interna e externa da PDVSA, que passou a ser feita fora da empresa e de forma pública. Além disso, a legislação limitou as atividades comerciais da PDVSA, que pode explorar, extrair, transportar, refinar e distribuir hidrocarbonetos e derivados, mas a companhia não pode  realizar qualquer forma de especulação financeira. Essas medidas de interferência do Governo na PDVSA foram um dos motivos para o mal sucedido Golpe de Estado sofrido por Chávez em 2002 e a greve geral do setor petroleiro, que fez a produção quase atingir o zero. A solução dos governantes para a greve foi a “importação” de milhares de técnicos cubanos para trabalhar na PDVSA. Outra solução encontrada para desmantelar a organização sindical e burocrática da companhia foi a demissão de 17 mil, dos 40 mil empregados da empresa. As medidas, embora impopulares, deram resultado e a produção de petróleo em 2002 foi a mesma do ano anterior.

Após a greve petroleira, de 2002-2003, o Governo estabeleceu um maior controle na produção de petróleo e de seus excedentes. Para incrementar a política social, em maio de 2004 criou-se o  Fundo para o Desenvolvimento Econômico e Social do País (FONDESPA), diretamente ligado ao dinheiro da PDVSA. Esta é uma tentativa de transferir para a população a riqueza gerada pelo petróleo. Já no primeiro ano de funcionamento da FONDESPA, a entidade contava com um caixa de US$ 2 milhões para investimentos. Isso fez com que programas sociais importantes ficassem ligados diretamente à presidência da república, desarticulando a importância da atividade ministerial nos projetos sociais. 

Desde 2005, o petróleo venezuelano é regido por um novo mecanismo. Se o preço do barril for de no máximo US$ 26, o dinheiro é destinado à PDVSA, que paga a folha de serviços e investe na própria infraestrutura. Caso o preço do barril ultrapasse esse valor, o excedente vai para a Presidência da República, que o divide entre o FONDESPA (obras sociais) e o Fundo Nacional do Desenvolvimento, o FONDEM (obras de infraestrutura nacional).