Graduação Pós-Graduação Pesquisa Extensão Biblioteca Intercâmbios Comunicação A FFLCH  
Skip to Content

Alunas da FFLCH são premiadas no 19º SIICUSP

Autor: 
Paulo Roberto Andrade

Duas alunas da FFLCH ficaram entre os 15 premiados no 19º SIICUSP, que contou com mais de 4 mil trabalhos de iniciação científica, apresentados em novembro passado, na própria Faculdade. Com a premiação, Ana Luísa Sertã, aluna de Ciências Sociais, e Bruna Bengozi, aluna de História, apresentaram seus trabalhos, no último mês de fevereiro, na Universidade do Porto, em Portugal.

O SIICUSP (Simpósio Internacional de Iniciação Científica da USP), realizado desde 1993, apresenta os resultados de pesquisas feitas por alunos de iniciação científica, estimulando a discussão interdisciplinar entre diferentes áreas de pesquisa. Os trabalhos são avaliados por professores e os melhores recebem menção honrosa.

Nesta 19ª edição foram apresentados 4.464 trabalhos, sendo 1.251 da área de humanas e humanidades e 299 de alunos da FFLCH. O evento concedeu 150 menções honrosas e premiou 15 alunos com a viagem ao exterior, em universidades nos Estados Unidos e Europa.

Segundo a professora Ana Lúcia Pastore Schritzmeyer, do Departamento de Antropologia da FFLCH e coordenadora do SIICUSP, o evento representa uma primeira experiência acadêmica para os alunos, e um incentivo para continuarem pesquisando. “A ideia é que o SIICUSP não só coloque em contato alunos de diferentes áreas, mas que faça com que eles recebam comentários dos professores que avaliam os trabalhos e, a partir daí, possam enriquecer suas pesquisas”, comenta.

Cemitérios Medievais
No evento, a estudante de História Bruna Bengozi apresentou sua pesquisa intitulada Os cemitérios em fileiras e as tumbas de chefes: os francos à luz da arqueologia das práticas funerárias no norte da Gália (séculos V-VIII). O trabalho, orientado pelo professor Marcelo Cândido da Silva, do Departamento de História da FFLCH, compara diferentes pesquisas sobre cemitérios em fileiras e tumbas de chefes da Idade Média. Bruna conta que seuinteresse pelo tema veio da “paixão” por história medieval e pelo interesse em fazer relações e críticas entre a História e a Arqueologia.

O estudo mostra como historiadores e arqueólogos, durante os séculos XIX e XX, usavam restos arqueológicos e humanos para apontar principalmente a identidade étnica dos enterrados durante a Alta Idade Média, na região da Gália (atual França). Essa relação direta entre sepulturas e etnicidade esteve presente nas pesquisas até meados do século XX, quando se passou a criticar tais pressupostos. “A maior ou menor regularidade das necrópoles ou a presença ou não de armamentos e joias no interior destas não podem ser vistas como evidências plausíveis para a determinação biológica da etnia dos sepultados”, explica a estudante em sua apresentação.

Bruna verificou que pesquisas mais recentes mostram que a presença de bens, armas e joias nas sepulturas “não seria primordialmente motivada por aspectos religiosos ou étnicos, mas sim pela necessidade de manutenção da posição da família do falecido dentro da comunidade local”. Assim, esses novos estudos das sepulturas medievais trazem reflexões sobre a organização sociocultural, política e aspectos ligados a gênero, idade e outros – apesar de muitos pesquisadores ainda utilizarem diferenciações étnicas para explicar as necrópoles.

Índios Urbanos
Já o trabalho de Ana Luísa Sertã mostrou pesquisas sobre a presença indígena em Manaus – mais precisamente da etnia Sateré-Mawé, originária do médio Amazonas e que passou a habitar a cidade formando comunidades e associações. “A temática indígena sempre me interessou, e mesmo antes da faculdade eu já havia realizado trabalhos junto aos Pataxó de Minas. O interesse por essa pesquisa surgiu quando, em 2009, o Núcleo de Antropologia Urbana da FFLCH foi convidado a integrar uma equipe de pesquisadores que investigariam diferentes aspectos da presença indígena na Amazônia”, lembra a estudante.

Na pesquisa, Ana passou a acompanhar a Associação de Mulheres Indígenas Sateré-Mawé (AMISM) e o trabalho de artesanato desenvolvido pelas associadas. Segundo a estudante, a atividade conecta as relações sociais juntamente com a condição étnica Sateré-Mawé. “Ao longo de três anos de trabalho de campo – realizados duas vezes por ano, num período de quinze a trinta dias – o artesanato despontou como um elemento-chave para pensar as relações que as integrantes da associação estabelecem com a cidade, com a terra indígena Andirá-Marau e uma ampla rede de pessoas e sementes que isso envolve”, explica.

A pesquisa descreve o fluxo de pessoas – e sementes – entre Manaus e a terra indígena de Andirá-Maraú, passando por municípios vizinhos. “A prática do artesanato – desde a coleta ou compra de matéria prima, elaboração, venda – parece acionar uma extensa rede que envolve parentes na cidade e na Terra Indígena, contatos com muitos outros indígenas na cidade e também os não indígenas, como compradores, turistas, representantes governamentais, ONGs, comerciantes e também com um elemento não humano fundamental, as sementes”, esclarece a estudante.

A pesquisa também acompanha o desenvolvimento dos modos de fazer artesanato, mostrando como o ambiente urbano influencia na atualização das técnicas de artesanato aprendidas na área indígena e transmitidas de geração em geração. Outro tema de estudo é um esboço do circuito de pontos de coleta de sementes dentro da cidade de Manaus, como terminais de ônibus, terrenos baldios e parques.

A pesquisa intitulada Fazendo colares, tecendo a rede: mulheres indígenas na cidade de Manaus foi orientada pelo professor José Guilherme Cantor Magnani, do Departamento de Antropologia da FFLCH.

Incentivo para a Carreira
Em relação aos premiados, a professora Ana Lúcia explica que eles representam exemplos dos melhores trabalhos, mas que não são necessariamente os melhores. “A ideia é que essas 150 menções honrosas e os 15 premiados sejam uma espécie de amostra do que o SIICUSP tem de melhor em termos de diversidade temática, interdisciplinaridade e dedicação discente na graduação”, completa.

Além de feliz e honrada pelo trabalho premiado, Ana Luísa acha que pesquisas e parcerias como a que participou entre USP e Universidade Federal do Amazonas (UFAM) devem ser sempre incentivadas. “A premiação contribuiu para minha decisão em prestar a prova para mestrado neste ano, pois senti que a pesquisa está rendendo frutos e gerou questões que pedem uma continuidade”, completa.

Para Bruna, a iniciação “é um período muito importante para ‘aprender’ a se fazer uma pesquisa na área acadêmica, é nesse momento em que realmente aprendemos a usar a biblioteca, a fazer levantamento bibliográfico, a ter acesso às obras que são importantes não só para o tema que será pesquisado, mas para a área como um todo, e assim por diante. É também um momento para se dedicar ao estudo de outras línguas, como Latim e Francês, que são essenciais para qualquer pessoa que deseja estudar a Idade Média. E toda essa aprendizagem adquirida durante a iniciação não me ajuda apenas no desenvolvimento da minha pesquisa, mas também me auxilia na graduação”, explica.

Viagem para Portugal
A USP possui um convênio com duas universidades norte-americanas, a Rutgers (The State University of New Jersey) e The Ohio State University, e a Universidade do Porto, em Portugal. O convênio implica que venham delegações estrangeiras dessas universidades apresentar seus trabalhos na USP. A contrapartida é que os melhores trabalhos do SIICUSP se apresentem em eventos semelhantes nas respectivas universidades estrangeiras.

Bruna explica que mais do que a oportunidade de apresentar a pesquisa em outra Universidade, para outros alunos e professores   com propostas e metodologias diferentes, a viagem permitiu a vivência de novas experiências acadêmicas e culturais. “Visitamos lugares muito interessantes, desde cidades grandes, como o Porto, até aldeias históricas quase desertas, como Marialva. Pudemos conhecer as instalações da Universidade e um pouco do cotidiano desses alunos”, conta.

A professora Ana Lúcia resume a principal lição do SIICUSP: “Acho que o principal da vida acadêmica é que os trabalhos não tem fim. Quando o aluno pensa que finalizou um trabalho e o apresenta, ele recebe comentários e percebe que pode continuar aprofundando e desdobrando aquele trabalho”, finaliza.