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Evento lembra os 100 anos do Professor e Sociólogo Azis Simão

Autor: 
Paulo Roberto Andrade

Aconteceu, no Centro Universitário Maria Antonia, uma homenagem ao sociólogo e professor da FFLCH Azis Simão, que completaria 100 anos no último dia 1º de maio. Além da presença de familiares, amigos e professores, o evento contou com uma mesa redonda composta pelos professores Antonio Candido de Mello e Souza, Maria Arminda do Nascimento Arruda, Heloísa Helena Teixeira de Souza Martins, todos da FFLCH, e José Sérgio Leite Lopes, da UFRJ. Ao fim da cerimônia, foi lançada a edição comemorativa do livro “Sindicato e Estado e outros escritos”, pela Hucitec Editora.

Professor como formador
A professora Maria Arminda foi orientanda do professor Azis Simão e falou sobre seus primeiros passos dentro da USP. Aos 17 anos, recém-chegada do Rio de Janeiro, ela lembrou a primeira vez que viu o professor, no anfiteatro do prédio de História, durante uma assembleia em que se discutia a situação política do Brasil. Estavam presentes professores e alunos inconformados com a ditadura militar. Ela, aluna do primeiro ano, se impressionou com a autoridade de um senhor de cabelos brancos esbravejando com o auditório inteiro que tentava impedir um professor de defender suas opiniões: “Fiquem quietos! Ninguém tem o direito de caçar a palavra de ninguém!”, dizia o professor Azis ao auditório que se calou para escutar os discursos.

Anos depois, já como orientanda do professor, Maria Arminda recorda sua decisão de mudar o tema de sua tese de doutorado após anos de pesquisa. O professor Azis não se opôs à mudança: “ele teve respeito por mim e falou que a vida acadêmica precisa de paixão. Ele disse ‘volte para casa e pense em algo que você goste’. Então fiz minha tese sobre literatura”, lembrou a professora.

A professora considera o professor Azis um mestre formador, e ressalta uma qualidade que o próprio definia como dignidade da função. “Ser professor implica em ter respeito mútuo perante a sala de aula. O professor é um formador de cidadania, caráter e ética. Sua presença tem que ser exemplo para seus alunos. E eu sigo isso, não entro na sala de aula de qualquer jeito, sempre penso na dignidade da profissão. E o professor Simão me ensinou isso: ser professor não é profissão, mas uma atividade de formação”, explicou a professora.

O amigo Antonio Candido
Já o Professor Emérito Antonio Candido de Mello e Souza falou de sua amizade e do lado humano do professor: “Conheci o Azis na Faculdade, em 1939, e foi um caso de amizade à primeira vista. Ele falava muito bem francês, numa época em que todas as aulas eram dadas em francês”, contou.

O professor lembra que Azis tinha muito bom humor e um senso de ridículo muito apurado. Também era um “ser extremamente politizado”. Suas convicções anarquistas lhe resguardaram um senso de liberdade muito grande, que levou por toda a vida. Em seus estudos, tanto Azis quanto Antonio Candido buscavam um marxismo que se adaptasse à realidade brasileira e, diferente de outros grupos, não apoiavam os modelos de socialismo mundo afora, como o soviético. “Acreditávamos que a democracia estava acima de qualquer alinhamento político. Era uma conquista humana que nunca poderia ser perdida”, afirmou.

Por conta da deficiência visual, Azis Simão cursou a faculdade de Ciências Sociais tardiamente, quando o professor Candido já era docente. Ele conta que Azis tinha uma grande capacidade de análise política. Examinava os assuntos com muita profundidade de conhecimento. “Ensinava os colegas de classe, que liam os conteúdos para ele e recebiam de volta análises sobre os textos. Ele foi um achado que os colegas encontraram”, recordou o professor.

Com a ajuda da esposa Nena, Azis via o mundo e coisas que muitos não enxergavam. O professor Candido lembra o fato de Azis não ter gostado da cor creme da catedral de Notre Dame, numa viagem à França, e das críticas ao Guerra e Paz, de Portinari. “Era um sábio brincalhão, muito politizado. Para defini-lo numa frase diria: era uma coisa rara, era um homem verdadeiramente humano”, completou o professor.

Obras de referência e paixão
O professor e antropólogo José Sergio Lopes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), apesar de não ter tido amizade pessoalmente com o professor Azis, falou da importância de seus trabalhos para a sociologia no Brasil. Ele define seus estudos como atemporais, que podem ser apreciados hoje pelas novas gerações. E que sua trajetória como mestre e pessoa deve ser preservada e propagada como documento histórico para estudos posteriores.

A professora Heloísa Helena Teixeira de Souza Martins também falou sobre a importância da paixão por aquilo que se faz, e o quanto é importante estar envolvido com o tema. Isso lhe serviu bastante no início de sua vida profissional no Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (DIEESE). “Aprendi a pensar como cientista, com paixão e envolvimento”, completou.

Por fim, a filha Livia Simão, professora do Instituto de Psicologia da USP (IPUSP), agradeceu a presença de todos, encerrando o evento.

Histórico
Azis Simão nasceu em Bragança Paulista, em 1º de maio de 1912. Filho de comerciantes libaneses, passou a infância no interior entre o campo e a cidade. Na adolescência, mudou-se para São Paulo com a família. Devido a um problema de visão, deixou os estudos por um tempo por recomendação médica, passando a trabalhar como comerciante.

Nessa época (1928), passou a trabalhar com jornalismo, tendo contato com o movimento operário; e começou a se interessar por literatura, filosofia e questões sociais. Manteve contato com escritores e artistas modernistas, militantes de esquerda e operários. Mais tarde, cursou a faculdade de Farmácia por ser o curso no qual poderia ter algum contato
com filosofia e ciências humanas.

Em 1933, participou da fundação do Partido Socialista, e atua ativamente na militância política, convivendo com grupos anarquistas, comunistas, socialistas. Em 1935, um novo deslocamento de retina lhe tirou a visão por completo.

Em 1939, após acompanhar algumas disciplinas como ouvinte, ingressou no curso de Ciências Sociais na USP onde, em 1951, passou a se dedicar à carreira universitária como professor e sociólogo. Realizou estudos sobre política, história do proletariado, comportamento eleitoral, relações entre trabalhadores e estado, entre outros. Permaneceu trabalhando e pesquisando na FFLCH, até se aposentar em 1982. Faleceu em 1990.

Fonte: Informe nº68 - maio/junho de 2012