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Ana Fani Alessandri Carlos ganha Prêmio Internacional de Geocrítica 2012

Autor: 
Juliana Penna

No ano de 2012, o Prêmio Internacional de Geocrítica selecionou entre seus ganhadores uma pesquisadora brasileira. No auge dos seus 40 anos de USP, a professora Ana Fani Alessandri Carlos há 30 é professora do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, e não se esquece de enaltecer o trabalho em equipe ao lembrar-se de sua vitória individual “Todo o trabalho acadêmico é sempre coletivo (…) e estar no Departamento de Geografia da FFLCH faz toda a diferença”.

O projeto que a levou para a cerimônia de premiação na capital catalã é um dos mais respeitados do mundo quando se trata da maior metrópole brasileira. Com a premissa de desvendar a construção do espaço urbano em São Paulo, trouxe contribuições imprescindíveis para o pensamento urbano global. Em sua pesquisa ela observa o quão intrínseca está, na composição da metrópole e em sua dinâmica urbana e social, a confluência de interesses do capital financeiro e das instituições governamentais em otimizar a cidade para a realização do lucro. Ou seja, estão impressas na geografia da cidade, no seu mapeamento, estrutura e vida cotidiana da população; a desigualdade, alienação e a exploração presentes na sociedade que a compõe.

“O habitante que mora na cidade de São Paulo, percebe essa cidade através dos atos da vida cotidiana a que ele está submetido. Os momentos do trabalho, os momentos do lazer, os momentos no transporte coletivo. O fato de se perder muito tempo no transporte coletivo se refere ao fato de a cidade, a metrópole; que se produz separando cada vez mais os lugares de trabalho dos lugares de moradia, uma metrópole que se produziu através de modelos automobilísticos que privilegiaram o transporte individual em detrimento do coletivo, de uma cidade onde o mercado imobiliário transforma todos os espaços em mercadoria; a moradia passa a ter cada vez mais uma função diluída, então o habitante da cidade de São Paulo vai, no dia a dia dele, se deparando com uma cidade que se produz com uma exterioridade em relação a ele. Com políticas que não lhe dizem respeito. Com espaços cada vez mais deteriorados, com o tempo e circulação e de mobilidade cada vez mais longo. Então ele se depara com uma cidade que se constitui com processos econômicos voltados à reprodução deles mesmos e à realização dos lucros; de políticas urbanas cada vez mais produzidas em alianças com o empresariado e de cidadãos que se veem cada vez mais apartados dessas decisões, vivendo uma cidade em deterioração. É nesse sentido que a gente percebe que os conflitos tendem a surgir em todos os lugares da cidade, exatamente porque o indivíduo se depara cada vez mais com espaços deteriorados e cada vez mais vazios. A cidade se esvazia nos seus conteúdos fundamentais e se afasta de sua função, que é a realização da vida. Então eu acredito que o habitante dessa gigantesca metrópole, vive concretamente os conflitos que vêm dessa estruturação econômica e das alianças políticas, entre os empresários e os governantes. O que eu pesquiso traz uma explicação dessa cidade e dessa vida cotidiana que nós levamos nessa cidade. E na vida cotidana tudo isso é bem visível”. Dessa forma, a professora admite a percepção concreta e visível dos processos socioeconômicos através da geografia da metrópole, concluindo enfim a cidade como “obra do homem”, como ela mesma refere.

E se o fenômeno de afastamento e alienação da população mais pobre, mencionado pela professora em sua pesquisa e em seu depoimento, é notório para o mundo leigo e acadêmico, são poucos os pesquisadores que os esclarecem dentro do contexto atual, contextualizando com eventos recentes de forma tão concreta e identificável. Os conflitos referidos acima, que hoje observamos nas metrópoles globais mundo afora ocorrem como consequência a essa dinâmica urbana segregacionista denunciada por Ana Fani. “Esse fenômeno é um pouco recente e isso está gerando um conjunto de movimentos sociais na cidade que não aparecem na mídia, mas que estão postos. Existem vários movimentos contrários a essas soluções e existem muitas insurgências na metrópole, que apesar de tudo, ainda mantém chamas vivas. Ainda tem festa na rua, ainda têm reuniões. Essas coisas vão acontecendo. Então para o futuro é, eu imagino positivamente e sendo bastante otimista, que esses movimentos da população, contrários a esse modo de planejar a metrópole que esvaziam os espaços públicos e permitem a deterioração das relações sociais, vão ter cada vez mais força e se não conseguem mudar, pelo menos denunciam esse planejamento autofágico da cidade que destrói as formas urbanas antes delas terem ‘merecido’ e vão acabar fazendo com que cada vez mais vozes se levantem contra esse tipo de atitude. Da consciência de que essas transformações são negativas pra sociedade e de que são contraditórias. O que eu vejo é que os conflitos vão se exacerbar. E vão pressionar o Estado, evidentemente”.

Em longo prazo, a professora também analisa outro fenômeno que, segundo ela, já acomete as populações de metrópoles no mundo todo: “perda de memória urbana”. Ela explica “Na medida em que, eu construo mais estradas, mais viadutos, amplio cada vez mais as avenidas, isso se faz com a deterioração dos bairros. As operações urbanas destroem os casarios, destroem as ruas, mudam completamente a fisionomia dos bairros, e transformam esses bairros em outra coisa. Nesse sentido, eles destroem o tempo acumulado da história presente nos bairros, tanto na estrutura arquitetônica quanto nas formas de vida. Então hoje em dia se você alargar uma rua e transformá-la em avenida, você muda o modo como as pessoas vão viver nesse lugar, porque o ‘tempo’ dessa rua vai ser diferente, as crianças não vão brincar mais na rua porque ela se torna perigosa, cria uma cicatriz no bairro, separa uma parte do bairro no outro. Então o que vai acontecer é que as pessoas vão ficar cada vez mais trancadas dentro de casa porque o espaço público é cada vez mais inóspito. Se torna o espaço do automóvel, o espaço da violência, o espaço da pressa e cada vez menos o espaço da vida. As pessoas, então, tendem a viver mais dentro de casa , tendem a ignorar cada vez mais o outro, o indivíduo que é seu vizinho e as relações de vizinhança tendem a se esvaziar. A vida na metrópole se transforma radicalmente. Esse processo de transformação acaba atenuando os elementos constitutivos da identidade porque a constituição da identidade na cidade é prática. É nas relações com o outro, nas relações com o espaços, com os lugares da cidade que a minha identidade como indivíduo se constitui como uma identidade coletiva como uma história que não é uma história individual, mas sim, uma história coletiva. Então na medida em que esses espaços estão cada vez mais esvaziados, essas relações de identidade tendem a se atenuar e é a identidade que sustenta a memória. E esses indivíduos tendem a estar cada vez mais presos à televisão, passam de uma atitude ativa para uma atitude de espectador. Antes se jogava futebol na rua, agora eu assisto futebol na televisão; antes se saia na rua, se brincava na rua, hoje as crianças ficam na frente dos computadores, diante dos smartphones. Então os objetos mudam, as brincadeiras e as relações na cidade também mudam como decorrência das mudanças na própria cidade. A identidade tende a se atenuar na cidade porque as relações se esvaziam e o cotidiano se empobrece”.

“Podemos citar Paris, Londres, Barcelona, aqui ao lado Buenos Aires; em todas essas cidades, em todas essas metrópoles estão ocorrendo operações urbanas violentas e essas operações urbanas estão mudando a cara da cidade. No mundo do capital financeiro, que é o que nós estamos vivendo hoje, o setor imobiliário passa a ter um papel importante, o espaço passa a ter um papel importante nesses processos de realização do lucro, e as transformações das metrópoles vão na mesma direção de tornar essas cidades viáveis ao lucro. Em todas as cidades os processos urbanos caminham na mesma direção, operações urbanas que destroem as áreas consideradas deterioradas. Mas o que é considerado deteriorado? Deteriorado é o pobre. Eles higienizam a cidade, tiram o pobre, que são as populações não compatíveis com a mudança, geram um processo de valorização dessas áreas, deixam a cidade bonita. Criam uma estética urbana que é a estética da segregação. Em todas elas nós temos os mesmos processos. Evidentemente, em cada metrópole, nós temos fenômenos históricos que fazem com que se realizem de formas diferenciadas, mas esse é um processo mundial. É um processo em que o capital financeiro se realiza agora através do espaço urbano.

O processo rápido de urbanização na cidade São Paulo, produto de um processo de industrialização tardio, gerou periferias nos enormes anos 70 e 80 e quase destituídas de vida, empobrecidas, decorrentes da alta exploração da força de trabalho industrial. Essa velocidade gerou desigualdades profundas. O fato de sermos um país periférico, que gerou uma industrialização tardia com altas taxas de exploração da força de trabalho, torna os problemas sociais da cidade de São Paulo muito mais gritantes que outras, mas os processos são os mesmos”.

Fonte: Informe nº68 - maio/junho de 2012