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João Paulo, amigo e orientador

Autor: 
Rolf Kuntz

27/04/16- A publicação de Teoria, Retórica, Ideologia, em junho de 1975, deu nova dimensão aos estudos de Hume no Brasil. O próprio João Paulo Monteiro havia escrito um trabalho de mestrado sobre os ensaios políticos humianos, pouco antes, mas seu roteiro continuava incomum. Voltadas principalmente para a teoria do conhecimento, as leituras mais frequentes, até esse momento, eram centradas na Investigação sobre o Entendimento Humano. Os mais interessados aventuravam-se pelo Tratado, mais amplo, mais complexo e mais ambicioso, mas, de toda forma, renegado pelo autor. Nenhum leitor razoavelmente informado ignorava a existência dos ensaios políticos e literários, mas a exploração desses textos era muito rara. Hume era, sobretudo, o maior nome do empirismo no Século das Luzes, lido pelos estudiosos de epistemologia e lembrado, obrigatoriamente, por sua influência sobre Kant. Sem exagero? – Tudo bem, esta descrição é um tanto caricatural, mas nem por isso é mentirosa. Fato dificilmente contestável: até o doutorado de João Paulo, a teoria social de Hume nunca havia sido explorada, no Brasil, de forma tão ampla e tão rigorosa como parte do projeto exposto no começo do Tratado.

Reler essa tese – num exemplar valorizado por uma dedicatória – equivale a experimentar de novo a descoberta da riqueza e, sobretudo, das articulações do pensamento social humiano. Para mostrar o conjunto e exibir as conexões entre as partes, João Paulo Monteiro explora tanto os ensaios quanto o Tratado sobre a Natureza Humana. Ao iniciar a exposição da teoria do governo (ou, em suas palavras, teoria política “em sentido restrito”), ele apresenta, em breve recapitulação, o encadeamento dos temas: “Esta teoria do governos se articula fundamentalmente com a teoria da justiça, com a teoria moral e com a teoria do sujeito. Seus enunciados se apresentam como conseqüências de teses enunciadas nessas teorias, teses que aparecem, aqui, como suas razões”.

João Paulo mostra o conjunto e os pontos principais de cada componente, mas sem explorar de forma exaustiva cada tema particular. Abre o caminho e deixa um campo imenso de trabalho para quem se dispuser a analisar cada um dos ensaios.   Psicologia social, sociologia, teoria (ou ciência) política, história e teoria econômica são os nomes atualmente usados para rotular essas áreas de investigação.

Ele pouco se ocupa dos escritos econômicos de Hume, originalmente incluídos nos Ensaios Morais, Políticos e Literários. Indica, especialmente na exploração do Tratado, perspectivas para a leitura também desses textos. Reunidos sob o título de Escritos sobre Economia, esses trabalhos são publicados em 1983, numa coleção da Nova Cultural, com tradução de Sara Albieri e, naturalmente, revisão do próprio João Paulo. A introdução é assinada por mim, único membro do grupo dedicado, pelo menos nessa época, à história do pensamento econômico.

A turma inclui gente interessada em história, como Sara, e em política e epistemologia. Há lugar para muitos, até para um docente empenhado em produzir, como trabalho de doutorado, uma tese sobre o pensamento do líder dos fisiocratas, François Quesnay. A ideia é mostrar como se combinam, na obra de Quesnay, os elementos empíricos e a construção teórica. João Paulo aceita o papel de orientador. A elaboração da tese é um tanto acidentada, porque é preciso conciliar o trabalho de jornalista, intenso e com viagens frequentes, com a atividade acadêmica. Mas o orientador é paciente, atencioso e tão preciso quanto econômico nas críticas e sugestões.

A convivência com João Paulo vai muito além do trabalho acadêmico. A relação entre orientado e orientador é apenas um capítulo breve de uma história muito mais ampla – de amizade com ele e com Maria Beatriz, e de muitos encontros e jantares com amigos, como Oswaldo e Ieda Porchat. Nenhum desses amigos era abstêmio e vários cooperaram na liquidação de algumas preciosidades, como uma esplêndida bagaceira centenária herdada do pai, o crítico Adolfo Casais Monteiro.

Os encontros ficaram bem menos frequentes, é claro, depois da mudança de João Paulo e Maria Beatriz para Portugal, onde continuaram a rotina da vida acadêmica. Mas nunca perderam o contato com a USP. Até há pouco tempo João Paulo orientou teses de estudantes brasileiros, participou de exames e convidou para suas bancas, como examinadores, os velhos companheiros e orientados.
Durante anos, ele voltou ao Brasil, com regularidade, principalmente durante os meses de inverno brasileiro, para cuidar de suas orientações e participar de seminários e conferências. Continuou escrevendo e publicando artigos e livros em vários países. Os livros Hume e a Epistemologia eNovos Estudos Humeanos estão entre suas últimas publicações no Brasil.

Em 2011 o número 124 da revista Kriterion, da Universidade Federal de Minas Gerais, foi dedicado integralmente a Hume como celebração dos 130 anos de seu nascimento. Lívia Guimarães, professora da UFMG, amiga e colaboradora frequente da Faculdade de Filosofia da USP, encarregou-se da edição. O artigo de abertura, Sobre a Interpretação da Epistemologia de Hume, foi assinado por João Paulo Monteiro. Convidado por Lívia, escrevi para esse número um texto intitulado Hume: a Teoria Social como Sistema. Foi uma tentativa de expor, em pouco mais de 30 páginas, a unidade dos vários escritos humianos de teoria social, incluídos os seus belos ensaios econômicos e sua História da Inglaterra. Seria necessário um espaço muito maior para uma boa exploração do assunto, mas espero ter apresentado, de forma sumária, a mensagem essencial. Ainda posso acrescentar, muito brevemente, um esclarecimento: a inspiração desse trabalho está obviamente em Teoria, Retórica e Ideologia.